Este é um post temerário. Antes que você me acuse de secularizado, mundano ou permissivo, quero te desafiar a andar mais algumas linhas na leitura, pois depois de muitas crises e neuroses, arrisco-me a, pela primeira vez neste blog, escrever e sugerir uma obra cultural do terror.
Isso pode parecer chocante e contraditório em um primeiro momento. Afinal, o terror estaria intimamente ligado, segundo alguns, a demônios. Se você é da época em que crente não ia ao cinema, isso deve ser particularmente próximo de sua opinião, mas como afirmei, parece-me impossível hoje não comentar sobre essa série que tem batido recorde de audiência nos EUA e no Brasil. Por isso, te convido a se desarmar e a se aventurar no texto que se segue.
"The Walking Dead" está em sua segunda temporada, e o segundo episódio vai ao ar hoje pelo canal FOX, da TV fechada. O título diz tudo: passamos longos momentos nos angustiando ao imaginar como seria o mundo após um holocausto zumbi. É isso mesmo: um vírus letal transforma as pessoas em "mortos que andam" (e não me refiro a Lázaro!), cujo único impulso vital restante os leva a desejar devorar os (poucos) vivos que restam. Os que não são completamente devorados ficam infectados e acabam por se transformar em zumbis, engrossando a massa de "walkers".
"O que há de cultural nisso?" você pode estar se perguntando. Eis aqui minha defesa.
Para os que tem estômago e disposição, os bons filmes de zumbi são na verdade grandes metáforas sobre a tênue estrutura social que nos une. Quando uma infecção zumbi foge ao controle, a lógica hobessiana de que "o homem é lobo do homem" parece predominar. Num contexto em que nenhuma das convenções sociais faz mais sentido, em que não há mais limites que contenham as pulsões, o que há de pior no humano vem à tona. É sintomático que o personagem central na série seja um policial. Em um momento muito bem sacado da primeira temporada, uma personagem deseja uma joia em uma loja de departamentos que está sendo provisoriamente usada como abrigo. Ela afirma que seria bom levar o colar para a irmã, mas que não conseguiria fazê-lo sob os olhos de um policial, que por sua vez, nada mais tem a dizer senão: "Vá em frente!".
Ainda há, de certa forma, a pulsão pela preservação, que colabora para a formação do debilitado grupo. Mas quem será o líder? Que motivos o gabaritam para tal? Por que suas decisões são as mais corretas? Essas primeiras e mais óbvias ideias surgem e nos fazem pensar sob nossa própria relação com a autoridade e a submissão.
A tradição dos filmes de zumbi tem em George Romero seu mentor. São críticas sagazes: "A Noite dos Mortos Vivos" evidencia o preconceito da década de 1960 que mata o único sobrevivente por ser ele um negro; "Amanhecer dos Mortos" aponta para os absurdos da sociedade de consumo que tem um shopping "todas as coisas" necessárias para sobreviver; "Diário dos Mortos", por sua vez, direciona a crítica para a geração youtube e sua superficialidade, alicerçada num gosto pela desgraça alheia disfarçada de necessidade de documentação e registro. Muitas outras leituras são possíveis e foram realizadas, como a catarse que transforma um holocausto zumbi em um grande parque de diversões, como em "Zumbilândia".
E não há apenas questões sociológicas. Há sim debates existenciais que tocam em questões como família, lealdade, luto e até mesmo fé! Como crer em um Deus que permite essas coisas? O problema central do sofrimento que perdura diante da imagem de um Deus bom permanece.
No fundo, os filmes de zumbi revelam a nosso ver uma visão extremamente bíblica: o que é o mundo em seu estado de queda mais absoluto, isto é, quais são de fato as consequências do pecado, que colocou toda a criação gemendo como em dores de parto, aguardando a manifestação dos filhos de Deus. O verdadeiro terror não está no monstro devorador de carne, mas sim no egoísmo e na selvageria domesticada no interior de cada um de nós, na falta de solidariedade e compaixão, na incapacidade de doar-se em favor do próximo. Eu e você precisamos ser os verdadeiros "mortos-vivos": da morte pra uma vida que cante a Deus!
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Comentário de Rafael Borges em 26 outubro 2011 às 13:11
Comentário de Caio Hayashida em 26 outubro 2011 às 11:47 © 2013 Criado por Marcus Siqueira.

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